Domingo, 23 de Março de 2008

19/03/2008

Livros da Unimontes para 2008

Na lista do primeiro ano sai pornografia e entra padre

A Unimontes indicou a lista de livros para PAES e para o vestibular tradicional. No ano passado, causou polêmica a antologia de poemas de Gregório de Matos Guerra, poeta maldito do barroco brasileiro. Foram citadas, em 2007, três antologias e no final todas elas acabaram sendo lidas e analisadas. A polêmica foi por causa do conteúdo dos poemas pornográficos indicados para o primeiro ano do ensino médio.

Em 2008, o primeiro ano do ensino médio não tem mais a pornografia de Gregório de Matos. Tem um padre em seu lugar, como se a mudança do bordel para o púlpito buscasse algum tipo de redenção. Se não é esse o motivo, a ironia contida na escolha não passou despercebida aos alunos.

A lista do primeiro ano indicou para o PAES

  1. Cronistas do descobrimento, de Antônio Carlos Olivieri e Marco Antônio Villa (orgs.). Editora Ática.
  2. Caramuru, de Frei José de Santa Rita Durão. Editora Martins Fontes.
  3. Sermão da sexagésima, de Padre Antônio Vieira. Editora L& PM (Coleção L&PM Pocket).
  4. Boca de chafariz, de Rui Mourão. Editora Villa Rica.

A Unimontes manteve, no primeiro ano, todos os livros do último exame do PAES, com exceção do Boca do Inferno. Em seu lugar, tem um padre.

Na segunda etapa do PAES, para 2008, manteve apenas Casa de pensão, de Aluísio Azevedo.

  1. Casa de pensão, de Aluízio Azevedo. Editora Ática.
  2. Noite na taverna, de Álvares de Azevedo. Editora Ática.
  3. O Ateneu, de Raul Pompéia. Editora Ática.
  4. Os Contos “O alienista” e “O espelho” (do livro Papéis avulsos), de Machado de Assis. Qualquer editora.

Para o vestibular tradicional e para o PAES da terceira etapa, a Unimontes manteve apenas Menino de engenho, de José Lins do Rego. A temática deste ano é sobre a infância e a memória. Tem menino e memória em profusão.

  1. Menino de engenho, de José Lins do Rego. Qualquer editora.
  2. “Campo Geral”. (In: Manuelzão e Miguilim), de Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira.
  3. Infância, de Graciliano Ramos. Editora Record.
  4. Boitempo I, de Carlos Drummond de Andrade. Editora Record.
  5. O Menino no Espelho, de Fernando Sabino. Qualquer editora.

19/03/2008

O quanto não sei para saber

Professor de geografia, Cássio Silva, faz palestra no Centro de Estudos

A relação entre razão e instinto, lógica e emoção, foi a temática da palestra do professor de geografia Cássio Silva no Centro de Estudos do Colégio Padrão, no dia 13 deste mês.

O título da palestra foi (...) o quanto não sei para que saber (...): Um momento de reflexão.” Cássio falou sobre a experiência do sensível e a prática racional em sala de aula, no dia a dia, ou no trabalho diante de resultados de pesquisa e da lógica, em que muitas vezes nos servimos de gráficos e tabelas.

Apresentou idéias sobre ontologia, epistemologia e teoria da proposição do que é verdade ou falso. Expôs, finalmente, a síntese da apresentação em três partes: a natureza e seus fenômenos, os princípios daí decorrentes; o homem e seus sentimentos, na percepção do sensível; e o homem e sua racionalidade, com o saber científico.

Depois passou em revista alguns fundamentos de escolas filosóficas como o empirismo, a fenomenologia, discorreu sobre o cartesianismo e os confrontou com o senso comum. Esses aspectos serviram de reflexão para o trabalho do professor e estimulou o debate entre os presentes na palestra.

Houve ainda apresentação de 20 minutos do filme Estamira, de Marcos Prado, vencedor de mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, seguido de algumas reflexões sobre o pensamento humano diante da realidade.

Cássio mostrou os resultados de pesquisa que fez no ensino médio sobre a relação entre os alunos e as disciplinas, professores, escola, vestibular e o conhecimento que produzem no colégio. Foi o ponto alto da apresentação. Os gráficos foram analisados e discutidos.

No final da palestra, para restabelecer a dicotomia que revelava o tema, o professor de Geografia fez uma dinâmica com os presentes. Embalagens coloridas ao lado de avisos com o nome dos sentidos humanos atraíam os olhares e criavam expectativa. Provou-se, depois da escolha feita pelos convidados, que apesar dos gráficos, da epistemologia e da lógica, serviram-se dos sentidos e dos instintos na escolha das embalagens, embora ignorassem o que havia dentro.

Esta foi a segunda apresentação do Centro de Estudos do Colégio Padrão. A primeira aconteceu no final de fevereiro. O palestrante foi o professor de literatura brasileira Gilson Neves. O tema foi o uso do computador como ferramenta de ensino na disciplina de Literatura.

Parangolivro, de Aroldo Pereira



Marginal e herói: pintura e música

na poesia de Aroldo Pereira

Gilson Neves


O primeiro impacto que nos provocou a leitura do poema “geração”, lá pelas tantas páginas de Parangolivro, o mais recente livro de poemas de Aroldo Pereira, foi nos fazer suspender a leitura e refletir sobre o que os versos diziam ou desdiziam:

passar no asilo

ver se reservaram

vaga pra minha

(p. 41)

Há muitos significados, evidente, caso contrário não seria poesia. No entanto, o primeiro que nos veio foi que a geração desse poeta sucumbia conforme sugeria a metáfora do primeiro verso. Não é verdade. Como representante da poesia marginal, Aroldo não só mantém os traços mais evidentes desse movimento – a crítica social, o verso livre, o deboche, a irreverência, a extrema subjetividade, o humor, o cotidiano, a síntese, a intertextualidade, o erotismo desbragado – , como ainda o supera, assimilando linguagens e imagens contemporâneas. Ao lado de certo ar de nostalgia, o leitor encontra uma voz nova e original.

Dentre os temas deste livro avultam o social, que se abeira do panfletário:

o brazil na televisão é 01 paraíso

a macromídia vende o país

do cinema americano do norte

(p. 79)

por que não se posiciona?

faça um reforma urbana.

divida seu coração, montes claros.

ajude esse povo triste e esperançoso

q. tem tanto amor por você!

seus atores sem teatro,

sua marujada sem prestígio,

seus operários sem fábricas.

montes claros, seus filhos choram

sua falta de interesse.

eles sangram sobre a ponte preta.

por que o trem-de-ferro vai parar?

por que os hospitais estão

fechando?

(p. 43)

O amor, com suas contradições e diversas faces, ora melancólica, ora alegre, irônica, ora sensual, erótica, pornográfica:

doce lar

doce mar de amarguras

(p. 39)

pecado

a cada instante que você

comete uma loucura

meu amor angustiado

arde nas chamas dos jornais

(p. 28)

trelelê

meupautácomsaudadedasuaboca

(p. 61)

A metapoesia, que apesar da presença da morte, da dificuldade de expressão, tem fé, acredita e luta contra as palavras e a solidão, a repercutir a mensagem de Carlos Drummond de Andrade:

palavras

A amora gonçalves pereira

o poema

in

cômoda

como 01 cisco no olho

íngua na língua

o verso martela

reverterevela

ressoapessoa

se há poesia

a pedra pousa

e o poema

alça voa

E, por fim, a temática sobre a família, os amigos:

cotidiano

meu filho lucas

dorme

minha filha amanda

cuida do rosto

o gato zilon

ressona zzzzz

no rádio rola

01 velho blues

em alguns momentos

viver é quase

sem mistério

(p. 48)

você estava certo, as frases estão sempre disponíveis.

só depende do seu nível de loucura, meu pai, meu

irmão, meu filho, minha mãe.

você sempre foi demais! nem raquel entendeu.

como maiakovski, você era todo coração. aliás, você era cem por cento arte.

(pp. 72-3)

Desses temas, cada um se oferece para uma análise rica e profunda. Comecemos, todavia, por aquilo que fascina em primeiro lugar: a linguagem e seus recursos expressivos. O poema “Parangolivro”, que dá título ao livro, se oferece por inteiro porque traz em si a síntese da poética aroldiana. Fala de um mundo órfão de alegria, despedaçado, barulhento, no qual a poesia luta para estabelecer sua morada. A musicalidade por isso produz arestas, sons rascantes, rudes ao ouvido. A aliteração destaca fonemas surdos e oclusivos, encontros consonantais, seqüências de fonemas deslocados na mesma frase melódica, rimas internas e assonantes, tudo isso em busca de um equilíbrio entre forma e conteúdo, trabalho de quem sabe manejar as palavras e sabe que efeitos procurar:

negro pobre poeta

escrever bater com a cabeça

uma arma em nossa mira

São recursos que nas mãos do poeta cria um vínculo entre o mundo triste e melancólico e a dimensão artística e onírica que pode, entretanto, salvá-lo. Peguemos ao acaso alguns versos de “Parangolivro”:

dentro da armadura

debater até sangrar

entrar e sair

como se não estivesse

Observe o domínio da palavra na carga aliterativa e dos encontros consonantais, sugerindo o som da fúria, de objetos e seres em conflito, em luta aberta, aos encontrões. A repetição do “r” insinuando a falta de fôlego de quem anseia por descanso, a cabeça fora d’água. Aroldo espalha pistas pelos versos, quer dialogar, interagir. Escrever poesia não é querer falar sozinho. A primeira palavra do primeiro verso – “dentro” – não aponta para armadura enquanto coisa somente, enquanto traje de guerra, ou apenas para o ser no interior da coisa representada, mas também enquanto palavra. Nela está “arma”, somada ao adjetivo que lhe resta. No segundo verso, “debater”, suprimido o prefixo, reforça o corpo-a-corpo, relacionando a ação de “bater” com o instrumento “arma”. No terceiro verso, encerra a surda batalha e antes que mude o acorde no último verso, exige uma última atenção do leitor. O prefixo de “de-bater”, significando oposição, reforça o estado beligerante entre as pessoas nesse mundo-máquina. Faz lembrar outro sentido criado por esse prefixo: o contrário do que significa o radical e nessa oposição, nesse jogo de contrários, o terceiro verso, se não traz explicitamente instrumento de luta nem gesto agressivo, é porque o dissimula na antítese e o “r” é dado como pista ao leitor. Lendo “sair” ao contrário temos o verbo “rias”. Na repetição do r, o som da risada, instrumento de combate, deboche e irreverência tão eficiente quanto os objetos beligerantes assinalados. Riso, gargalhada e sussurro. A aliteração do “s” no último verso transmuda em sussurro o que era riso aberto. Como se não estivesse rindo enquanto dissimula e ri, versos que se completam a outros, como na página 41:

quero ser sincero ao máximo

mesmo mentindo o tempo todo

retomando a dissimulação de “entrar e sair”, dentro e fora, ser e não-ser, armado e não-armado, em que o riso desnuda, franqueia e zomba de atitudes que se acham protegidas pelo disfarce das relações sociais condicionadas.

Em verdade, o poema “Parangolivro”, sendo uma espécie de profissão de fé aroldiana, espalha-se nos diversos textos metapoéticos do livro:

negro pobre poeta

sem noção de seqüência

multiplicidade de olhares

ler e descobrir

(p. 13)

O primeiro verso revela um recurso que nomeei de metáfora ou adjetivação de mão dupla. O jogo de palavras, a sem-noção de seqüência, pode tomar da esquerda para a direita a palavra poeta como substantivo ou adjetivo. Da direita para a esquerda, negro segue a mesma interpretação, negro para quem é negro, minoria oprimida, ou negro para quem está sombrio, abismado em sombras de tristeza, a alma a sangrar de dor pelo mundo desabitado de nós mesmos. Essa possibilidade de leitura enriquece a poesia aroldiana.

Nesse mesmo poema, no verso

não ter onde ir

duas leituras se cruzam na exploração do coloquialismo. Se estivesse gramaticalmente correto, o efeito não seria o mesmo. Muito do gosto do poeta, o paradoxo, a oposição, às vezes se escancaram; outras vezes, como nesse verso, dissimulam-se. Na primeira leitura, a negação vem escrita no próprio verso. Na segunda leitura, a negação se desfaz, positiva-se, abre-se como solução, caminho:

não ter onde [ ir ]

contradição que nos remete de alguma forma a Fernando Pessoa, cuja alusão aparece no poema “Palavras”.

Antes de entrarmos na intertextualidade, lembremos um outro recurso expressivo em “Parangolivro”, cuja contribuição veio da poesia concreta:

uma rua de são paulo

de coração de jesus

cada vez + distante

Aroldo usa o sinal de soma para negar a soma porque subverte seu sentido. Se é distante é porque não a tem, então não é mais, é menos. Também é resquício da memória, vai diluindo-se, nesse caso continua sendo menos. Por outro lado, o sinal é coisa, imagem, cruz, que se relaciona à morte, a desligamento. Coração de Jesus, cidade, civilização, urbe, indiferença, máquina; Coração de Jesus, religião, mistério, sacrifício, amor, sentimentos negados na contradição do signo, na lembrança de algo morto, cemitério, marcas de túmulos na branquidão bege da página do livro. Portanto, mão dupla.

Noutro verso, o sinal se une a outro:

05 favelas e + cresce

Os numerais aparecem como marcas de livros contábeis – 01, 03, 02, 05 – , endereços e nomes – av., stº, q. – , enfatizando a fragmentação, homem aos pedaços, linguagem árida de homem urbano, sintética. Nesse espaço, tiroteios, estupros, suicídios, pobreza. Por causa dele o sinal positivo nega a si próprio. Sinal de morte, violência. Lembra romanticamente a cruz de quem morreu na solidão das estradas, como no poema de Castro Alves.

Porém, o mesmo sinal pode ser vida como revela outro poema. Em “musa operária” traz a espontaneidade e o riso adolescente do espaço virtual, dos emoticons, onde o sinal lembra o asterisco usado para retratar o beijo e a letra q. lembra a letra p usada para desenhar o rosto de quem fez cara de bobo por uma circunstância feliz.

ela tem o beijo + gostoso q. já ganhei

e ficou só nisso

é casada tem 03 filhos e trabalha muito

tem o beijo + gostoso e 01 sorriso de cinema

(p. 52)

A construção do verso aliada à intertextualidade produz em Aroldo achados notáveis:

morro raimundo de montes

claros colares

(p. 15)

Na primeira vez que li o livro disse a Aroldo que os poemas traziam alegria apesar da atmosfera às vezes demasiadamente melancólica. O diálogo que o poeta faz com a música e a imagem plástica nesses versos mostra isso. As sílabas mor, mun e mon estufam os lábios ao serem pronunciadas, “formam” morros, montes. O leitor deve pronunciá-las nesse momento e atentar para o movimento da boca. A assonância por sua vez cria uma sombra, as vogais são escuras, articuladas no fundo da boca, cavernosas, a língua recolhendo-se. Temos a imagem dos morros e montes sucumbindo ao crepúsculo e às sombras. Em raimundo, entretanto, a sílaba rai brilha porque os fonemas transformam-se em sorriso na boca de quem os pronuncia. Em vez de se fechar, a boca se abre, imponderavelmente. O a como fonema médio, central, viaja em gradação para o i em busca de luz. Suprimida a sílaba – nesse caso, não mais sílaba, mas nome, palavra independente, conforme as expressões e substantivos compostos de Aroldo – , o verso fica negro, escuro, sem brilho. A morte, no verbo em primeira pessoa – morro – , liga-se a monte, metáfora para túmulo, enquanto o s se destaca como um pedido de silêncio, de expectativa:

morro mundo monte [s]

A pronúncia em gradação descendente aumenta a melancolia, ao nasalizar-se:

mor mun mon

como o tanger triste de um sino ao longe. A palavra mundo no centro vai dar novo significado à palavra rai. Quando pronunciada a palavra raí-mundo situa-se em dois extremos, aberto e fechado. Rai ao contrário dardeja no sorriso raios de sol, aurora em verso, poesia-pintura, razão por que o segundo verso

claros colares

destaca a alegria e a brancura da vogal a, o sorriso repetido duas vezes e mantido em reverberação na rima interna na 1ª e 4ª sílabas métricas. O encontro consonantal é líquido, salivamos quando o pronunciamos, tal como fazemos diante da palavra tamarindo, sinestesia provocada pela luminosidade jogada contra as sombras sugeridas pelo primeiro verso.

Vejo nesses dois versos uma das mais criativas homenagens que alguém poderia fazer à terra que ama. Num lance concretista, em gradação, vamos desconstruir e reconstruir o primeiro verso para desnudar a plasticidade do texto de Aroldo Pereira:

Morro raimundo de montes

Morro raimundo montes

Morro mundo monte

mor mun mon

mor mundo mon

morro mundo monte (s)

morro ( rai ) montes

que nos remete aos dois morros (morro-monte) e entre eles o sol (morro-rai-monte) da bandeira de Montes Claros. Com o nome de um artista plástico e a sensibilidade de poeta, Aroldo escreveu música, pintou literatura, musicou pintura.

Mais adiante, no poema “olhos urbanos”, o poeta impreca, desabafa, lamenta por Montes Claros, que morre ao vivo:

por que a faculdade vai cair,

princesa decadente?

você e seus olhos de neon

não respondem nada.

seu coração está deteriorado,

chagásico...

e você já não se preocupa

com seus rios q. secam,

com suas montanhas

q. diuturnamente viram pó.

montes claros, desliga a

televisão.

(p. 44)

São duas manifestações em construções diferentes, uma não menos poética que a outra, na abordagem do mesmo tema, dos mais caros ao poeta.

Outros diálogos, paráfrases, alusões, estilizações, citações, inúmeras intertextualidades formam cimento e massa para os demais poemas deste livro. Manuel Bandeira, Pessoa, Leminski, Drummond, para citar os mais distraídos.

A propósito, o poema drummondrummond apresenta dupla alusão, não somente ao poeta de “A rosa do povo”, como também a Alphonsus Guimaraens, presente no som do sino do título e na atmosfera de tristeza e morte no conteúdo do poema.

Aroldo lança mão também de apropriação de frases feitas, de cunho religioso e popular, reescritas com forte pendor para a crítica social, como em “mentir é arma de domínio”, que antes de Aroldo era “mentir é arma do demônio.”

Desse modo, comprova-se que a poesia marginal engendra um discurso poético resistente ao tempo se posto nas mãos e mente de um poeta que corresponda ao ofício de fazer versos. O título do livro pega o leitor na contra-mão. Parangolivro, neologismo formado de parangolé – palavreado desalinhado, e livro. Palavreado significa seu oposto, dessacraliza o formal, o sério, o normativo. Desalinhado, fora e além dos termos impostos por uma sociedade autofágica, preconceituosa, burra. Não alinhado. Marginal século XXI. Contra a máquina:

há coisas miúdas q. nos encantam

mesmo faltando dinheiro para o aluguel

e a visita tendo q. dormir no sofá

(p. 58)


Charge

Charge

Sábado, 8 de Março de 2008

Semana Cultural paz e justiça

Artistas da cidade, do Brasil e da Itália em Montes Claros


A Associação Sócio-Cultural Igor Vive estará promovendo a 4º Semana Cultural Igor Xavier, de 11 a 15 de Março de 2008. No dia 15 de março, Igor completaria 36 anos. O artista foi assassinado em Montes Claros há seis anos e até hoje os culpados não foram a julgamento. A programação está acontecendo no Centro Cultural Hermes de Paula, no Campus Darcy Ribeiro da UNIMONTES e na Praça Igor Xavier, com a participação de músicos, poetas, coreógrafos, bailarinos, performers, atores e pensadores de Montes Claros, de várias partes do país (Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Arco Verde/PE e Ribeirão Preto/SP), além de outros vindos de Milão, na Itália.

Na semana que antecede a programação, de 3 a 10 de Março, Marlene e Mazinho Xavier (pais de Igor), Aroldo Pereira, Adriana Camargo, Arlete Aguiar, Patrícia Gisele, Mirna Mendes, Lara Araújo, Alexandre Zuba, Bob Marcílio, Renilson Durães, Fred Gonçalves, Simone Xavier, parentes, amigos e simpatizantes da luta por justiça e paz farão intervenções-relâmpago na Unimontes, nas Faculdades Pitágoras e em outras instituições de ensino. Será apresentada uma reportagem, veiculada pela TV Brasil (Série "Homofobia" nº 5 - Dir. Jefferson Pinheiro e André de Oliveira - Porto Alegre; 2008).

Feira de arte e artesanato

A Feirinha da Praça da Matriz atrai multidão


Centro de exposição e comercialização do artesanato local e regional, a Feira de Arte e Artesanato de Montes Claros, carinhosamente chamada de “Feirinha”, além de uma vitrine para a produção dos artistas plásticos e artesãos, é também uma atração turística importante da cidade. Ela acontece todo domingo, de 8 às 14 horas, na Praça da Matriz, por onde passam cerca de duas mil pessoas, entre jovens, adultos e crianças e se consolida como um agradável programa de lazer. A feira tem apoio da Secretaria Municipal de Cultura e traz benefícios para 191 expositores que vendem seus trabalhos feitos em metal, madeira, couro, barro, papel maché, tecido, sementes, materiais diversos e oferece pratos da culinária regional, como o tradicional arroz com pequi. Além da arte e da culinária, acontecem espetáculos musicais.

Os eventos no Padrão

Fique esperto para não perder nada


Mesmo que não possa participar ou o evento não estiver voltado para nossa área (aluno no Congresso de Educação da Rede Pitágoras, por exemplo) é sempre bom estar por dentro do que acontece em nossa escola. Informar-se e conhecer já são atos de participação. Saiba o quê e quando. Fale, converse, espalhe.

19/03: Comemoração da Páscoa

29/03: Congresso Educação (Rede Pitágoras)

15 e 16/04: Mini-Onu

10/05: Comemoração do Dia das Mães

31/05: Coroação de Nossa Senhora

14/06: Simpósio de Educadores

21/06: Festa Junina

Julho: Excursão dos alunos

09/08: Comemoração do Dia dos Pais

11/08: Comemoração do Dia do Estudante

19 e 20/09: Artes na Primavera

29/09: Congresso dos Pais

Outubro: Semana da Criança

Out. e novembro: JERP

Novembro: Festival de Teatro da Educação Infantil

17 a 21/11: Seminários de Ciências

CONTO 6 – O NOVATO

O NOVATO

Estávamos em aula, quando entrou o diretor, seguido de um novato, vestido modestamente, e um servente sobraçando uma grande carteira. Os que dormiam despertaram e puseram-se de pé como se os tivessem surpreendido no trabalho.

O diretor fez sinal para sentarmo-nos; depois, voltando-se para O professor:

– Sr. Marcelo – disse, à meia voz –, eis um aluno que lhe recomendo; vai para a quinta série. Se sua aplicação e seu comportamento forem bons, passará para a turma mais adiantada, por causa da idade.

A um canto, atrás da porta, mal podíamos ver o novato. Era um rapaz do campo, de quinze anos mais ou menos, mais alto que qualquer de nós, os cabelos rentes sobre a testa, como um sacristão de aldeia, um aspecto compenetrado e acanhadíssimo. (1)

O servente colocou a cadeira ao meu lado e o aluno sentou-se. O professor continuou a dar sua aula, mas fiquei um tempo olhando para aquela figura estranha ao meu lado. Perguntei-lhe seu nome. Me disse que era Matheus e que viera de uma cidadezinha aqui perto, que mal tinha escolas. Dissera que sua mãe tinha conseguido um emprego como lavadeira na cidade, por isso se mudara.

O sinal bateu anunciando o intervalo. Ele já não estava tão estranho. Veio atrás de mim e fomos comer alguma coisa. Conversamos um pouco e percebi que ele era até legal, que apesar de mais velho e mais alto, pensava como a gente. (2)

______________

(1) Gustave Flaubert

(2) Raiana Barbosa Chaves / 2º Ano

CONTO 5 – AS PRIMEIRAS ÁGUAS


AS PRIMEIRAS ÁGUAS

Namorar eu não namorava ainda não, mas já conhecia aquela espécie de sentimento de perda no coração, aquelas batidas súbitas no telhado da minha consciência, sozinha, no escuro, já conhecia inclusive suas pegadas no meu sono. E ele, embora sem distinção nenhuma que lhe desse jeito, tinha um nome que começava com uma sílaba que era a baunilha do dropes a manchar a minha língua nos recreios ensolarados da escola, mancha forte, saborosa, sobrando pro dia inteiro. Mas não namorava ainda, só adivinhava. Até que num domingo, a chuva mandou seu recado. Então anotei na agenda. Escrevi com calma. E me preparei para a segunda-feira que vinha de trem, embalada, na minha direção. (1)

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(1) Gilson Neves