Estávamos em aula, quando entrou o diretor, seguido de um novato, vestido modestamente, e um servente sobraçando uma grande carteira. Os que dormiam despertaram e puseram-se de pé como se os tivessem surpreendido no trabalho.
O diretor fez sinal para sentarmo-nos; depois, voltando-se para O professor:
– Sr. Marcelo – disse, à meia voz –, eis um aluno que lhe recomendo; vai para a quinta série. Se sua aplicação e seu comportamento forem bons, passará para a turma mais adiantada, por causa da idade.
A um canto, atrás da porta, mal podíamos ver o novato. Era um rapaz do campo, de quinze anos mais ou menos, mais alto que qualquer de nós, os cabelos rentes sobre a testa, como um sacristão de aldeia, um aspecto compenetrado e acanhadíssimo. (1)
O servente colocou a cadeira ao meu lado e o aluno sentou-se. O professor continuou a dar sua aula, mas fiquei um tempo olhando para aquela figura estranha ao meu lado. Perguntei-lhe seu nome. Me disse que era Matheus e que viera de uma cidadezinha aqui perto, que mal tinha escolas. Dissera que sua mãe tinha conseguido um emprego como lavadeira na cidade, por isso se mudara.
O sinal bateu anunciando o intervalo. Ele já não estava tão estranho. Veio atrás de mim e fomos comer alguma coisa. Conversamos um pouco e percebi que ele era até legal, que apesar de mais velho e mais alto, pensava como a gente. (2)
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(1) Gustave Flaubert
(2) Raiana Barbosa Chaves / 2º Ano
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