domingo, 23 de março de 2008

Parangolivro, de Aroldo Pereira



Marginal e herói: pintura e música

na poesia de Aroldo Pereira

Gilson Neves


O primeiro impacto que nos provocou a leitura do poema “geração”, lá pelas tantas páginas de Parangolivro, o mais recente livro de poemas de Aroldo Pereira, foi nos fazer suspender a leitura e refletir sobre o que os versos diziam ou desdiziam:

passar no asilo

ver se reservaram

vaga pra minha

(p. 41)

Há muitos significados, evidente, caso contrário não seria poesia. No entanto, o primeiro que nos veio foi que a geração desse poeta sucumbia conforme sugeria a metáfora do primeiro verso. Não é verdade. Como representante da poesia marginal, Aroldo não só mantém os traços mais evidentes desse movimento – a crítica social, o verso livre, o deboche, a irreverência, a extrema subjetividade, o humor, o cotidiano, a síntese, a intertextualidade, o erotismo desbragado – , como ainda o supera, assimilando linguagens e imagens contemporâneas. Ao lado de certo ar de nostalgia, o leitor encontra uma voz nova e original.

Dentre os temas deste livro avultam o social, que se abeira do panfletário:

o brazil na televisão é 01 paraíso

a macromídia vende o país

do cinema americano do norte

(p. 79)

por que não se posiciona?

faça um reforma urbana.

divida seu coração, montes claros.

ajude esse povo triste e esperançoso

q. tem tanto amor por você!

seus atores sem teatro,

sua marujada sem prestígio,

seus operários sem fábricas.

montes claros, seus filhos choram

sua falta de interesse.

eles sangram sobre a ponte preta.

por que o trem-de-ferro vai parar?

por que os hospitais estão

fechando?

(p. 43)

O amor, com suas contradições e diversas faces, ora melancólica, ora alegre, irônica, ora sensual, erótica, pornográfica:

doce lar

doce mar de amarguras

(p. 39)

pecado

a cada instante que você

comete uma loucura

meu amor angustiado

arde nas chamas dos jornais

(p. 28)

trelelê

meupautácomsaudadedasuaboca

(p. 61)

A metapoesia, que apesar da presença da morte, da dificuldade de expressão, tem fé, acredita e luta contra as palavras e a solidão, a repercutir a mensagem de Carlos Drummond de Andrade:

palavras

A amora gonçalves pereira

o poema

in

cômoda

como 01 cisco no olho

íngua na língua

o verso martela

reverterevela

ressoapessoa

se há poesia

a pedra pousa

e o poema

alça voa

E, por fim, a temática sobre a família, os amigos:

cotidiano

meu filho lucas

dorme

minha filha amanda

cuida do rosto

o gato zilon

ressona zzzzz

no rádio rola

01 velho blues

em alguns momentos

viver é quase

sem mistério

(p. 48)

você estava certo, as frases estão sempre disponíveis.

só depende do seu nível de loucura, meu pai, meu

irmão, meu filho, minha mãe.

você sempre foi demais! nem raquel entendeu.

como maiakovski, você era todo coração. aliás, você era cem por cento arte.

(pp. 72-3)

Desses temas, cada um se oferece para uma análise rica e profunda. Comecemos, todavia, por aquilo que fascina em primeiro lugar: a linguagem e seus recursos expressivos. O poema “Parangolivro”, que dá título ao livro, se oferece por inteiro porque traz em si a síntese da poética aroldiana. Fala de um mundo órfão de alegria, despedaçado, barulhento, no qual a poesia luta para estabelecer sua morada. A musicalidade por isso produz arestas, sons rascantes, rudes ao ouvido. A aliteração destaca fonemas surdos e oclusivos, encontros consonantais, seqüências de fonemas deslocados na mesma frase melódica, rimas internas e assonantes, tudo isso em busca de um equilíbrio entre forma e conteúdo, trabalho de quem sabe manejar as palavras e sabe que efeitos procurar:

negro pobre poeta

escrever bater com a cabeça

uma arma em nossa mira

São recursos que nas mãos do poeta cria um vínculo entre o mundo triste e melancólico e a dimensão artística e onírica que pode, entretanto, salvá-lo. Peguemos ao acaso alguns versos de “Parangolivro”:

dentro da armadura

debater até sangrar

entrar e sair

como se não estivesse

Observe o domínio da palavra na carga aliterativa e dos encontros consonantais, sugerindo o som da fúria, de objetos e seres em conflito, em luta aberta, aos encontrões. A repetição do “r” insinuando a falta de fôlego de quem anseia por descanso, a cabeça fora d’água. Aroldo espalha pistas pelos versos, quer dialogar, interagir. Escrever poesia não é querer falar sozinho. A primeira palavra do primeiro verso – “dentro” – não aponta para armadura enquanto coisa somente, enquanto traje de guerra, ou apenas para o ser no interior da coisa representada, mas também enquanto palavra. Nela está “arma”, somada ao adjetivo que lhe resta. No segundo verso, “debater”, suprimido o prefixo, reforça o corpo-a-corpo, relacionando a ação de “bater” com o instrumento “arma”. No terceiro verso, encerra a surda batalha e antes que mude o acorde no último verso, exige uma última atenção do leitor. O prefixo de “de-bater”, significando oposição, reforça o estado beligerante entre as pessoas nesse mundo-máquina. Faz lembrar outro sentido criado por esse prefixo: o contrário do que significa o radical e nessa oposição, nesse jogo de contrários, o terceiro verso, se não traz explicitamente instrumento de luta nem gesto agressivo, é porque o dissimula na antítese e o “r” é dado como pista ao leitor. Lendo “sair” ao contrário temos o verbo “rias”. Na repetição do r, o som da risada, instrumento de combate, deboche e irreverência tão eficiente quanto os objetos beligerantes assinalados. Riso, gargalhada e sussurro. A aliteração do “s” no último verso transmuda em sussurro o que era riso aberto. Como se não estivesse rindo enquanto dissimula e ri, versos que se completam a outros, como na página 41:

quero ser sincero ao máximo

mesmo mentindo o tempo todo

retomando a dissimulação de “entrar e sair”, dentro e fora, ser e não-ser, armado e não-armado, em que o riso desnuda, franqueia e zomba de atitudes que se acham protegidas pelo disfarce das relações sociais condicionadas.

Em verdade, o poema “Parangolivro”, sendo uma espécie de profissão de fé aroldiana, espalha-se nos diversos textos metapoéticos do livro:

negro pobre poeta

sem noção de seqüência

multiplicidade de olhares

ler e descobrir

(p. 13)

O primeiro verso revela um recurso que nomeei de metáfora ou adjetivação de mão dupla. O jogo de palavras, a sem-noção de seqüência, pode tomar da esquerda para a direita a palavra poeta como substantivo ou adjetivo. Da direita para a esquerda, negro segue a mesma interpretação, negro para quem é negro, minoria oprimida, ou negro para quem está sombrio, abismado em sombras de tristeza, a alma a sangrar de dor pelo mundo desabitado de nós mesmos. Essa possibilidade de leitura enriquece a poesia aroldiana.

Nesse mesmo poema, no verso

não ter onde ir

duas leituras se cruzam na exploração do coloquialismo. Se estivesse gramaticalmente correto, o efeito não seria o mesmo. Muito do gosto do poeta, o paradoxo, a oposição, às vezes se escancaram; outras vezes, como nesse verso, dissimulam-se. Na primeira leitura, a negação vem escrita no próprio verso. Na segunda leitura, a negação se desfaz, positiva-se, abre-se como solução, caminho:

não ter onde [ ir ]

contradição que nos remete de alguma forma a Fernando Pessoa, cuja alusão aparece no poema “Palavras”.

Antes de entrarmos na intertextualidade, lembremos um outro recurso expressivo em “Parangolivro”, cuja contribuição veio da poesia concreta:

uma rua de são paulo

de coração de jesus

cada vez + distante

Aroldo usa o sinal de soma para negar a soma porque subverte seu sentido. Se é distante é porque não a tem, então não é mais, é menos. Também é resquício da memória, vai diluindo-se, nesse caso continua sendo menos. Por outro lado, o sinal é coisa, imagem, cruz, que se relaciona à morte, a desligamento. Coração de Jesus, cidade, civilização, urbe, indiferença, máquina; Coração de Jesus, religião, mistério, sacrifício, amor, sentimentos negados na contradição do signo, na lembrança de algo morto, cemitério, marcas de túmulos na branquidão bege da página do livro. Portanto, mão dupla.

Noutro verso, o sinal se une a outro:

05 favelas e + cresce

Os numerais aparecem como marcas de livros contábeis – 01, 03, 02, 05 – , endereços e nomes – av., stº, q. – , enfatizando a fragmentação, homem aos pedaços, linguagem árida de homem urbano, sintética. Nesse espaço, tiroteios, estupros, suicídios, pobreza. Por causa dele o sinal positivo nega a si próprio. Sinal de morte, violência. Lembra romanticamente a cruz de quem morreu na solidão das estradas, como no poema de Castro Alves.

Porém, o mesmo sinal pode ser vida como revela outro poema. Em “musa operária” traz a espontaneidade e o riso adolescente do espaço virtual, dos emoticons, onde o sinal lembra o asterisco usado para retratar o beijo e a letra q. lembra a letra p usada para desenhar o rosto de quem fez cara de bobo por uma circunstância feliz.

ela tem o beijo + gostoso q. já ganhei

e ficou só nisso

é casada tem 03 filhos e trabalha muito

tem o beijo + gostoso e 01 sorriso de cinema

(p. 52)

A construção do verso aliada à intertextualidade produz em Aroldo achados notáveis:

morro raimundo de montes

claros colares

(p. 15)

Na primeira vez que li o livro disse a Aroldo que os poemas traziam alegria apesar da atmosfera às vezes demasiadamente melancólica. O diálogo que o poeta faz com a música e a imagem plástica nesses versos mostra isso. As sílabas mor, mun e mon estufam os lábios ao serem pronunciadas, “formam” morros, montes. O leitor deve pronunciá-las nesse momento e atentar para o movimento da boca. A assonância por sua vez cria uma sombra, as vogais são escuras, articuladas no fundo da boca, cavernosas, a língua recolhendo-se. Temos a imagem dos morros e montes sucumbindo ao crepúsculo e às sombras. Em raimundo, entretanto, a sílaba rai brilha porque os fonemas transformam-se em sorriso na boca de quem os pronuncia. Em vez de se fechar, a boca se abre, imponderavelmente. O a como fonema médio, central, viaja em gradação para o i em busca de luz. Suprimida a sílaba – nesse caso, não mais sílaba, mas nome, palavra independente, conforme as expressões e substantivos compostos de Aroldo – , o verso fica negro, escuro, sem brilho. A morte, no verbo em primeira pessoa – morro – , liga-se a monte, metáfora para túmulo, enquanto o s se destaca como um pedido de silêncio, de expectativa:

morro mundo monte [s]

A pronúncia em gradação descendente aumenta a melancolia, ao nasalizar-se:

mor mun mon

como o tanger triste de um sino ao longe. A palavra mundo no centro vai dar novo significado à palavra rai. Quando pronunciada a palavra raí-mundo situa-se em dois extremos, aberto e fechado. Rai ao contrário dardeja no sorriso raios de sol, aurora em verso, poesia-pintura, razão por que o segundo verso

claros colares

destaca a alegria e a brancura da vogal a, o sorriso repetido duas vezes e mantido em reverberação na rima interna na 1ª e 4ª sílabas métricas. O encontro consonantal é líquido, salivamos quando o pronunciamos, tal como fazemos diante da palavra tamarindo, sinestesia provocada pela luminosidade jogada contra as sombras sugeridas pelo primeiro verso.

Vejo nesses dois versos uma das mais criativas homenagens que alguém poderia fazer à terra que ama. Num lance concretista, em gradação, vamos desconstruir e reconstruir o primeiro verso para desnudar a plasticidade do texto de Aroldo Pereira:

Morro raimundo de montes

Morro raimundo montes

Morro mundo monte

mor mun mon

mor mundo mon

morro mundo monte (s)

morro ( rai ) montes

que nos remete aos dois morros (morro-monte) e entre eles o sol (morro-rai-monte) da bandeira de Montes Claros. Com o nome de um artista plástico e a sensibilidade de poeta, Aroldo escreveu música, pintou literatura, musicou pintura.

Mais adiante, no poema “olhos urbanos”, o poeta impreca, desabafa, lamenta por Montes Claros, que morre ao vivo:

por que a faculdade vai cair,

princesa decadente?

você e seus olhos de neon

não respondem nada.

seu coração está deteriorado,

chagásico...

e você já não se preocupa

com seus rios q. secam,

com suas montanhas

q. diuturnamente viram pó.

montes claros, desliga a

televisão.

(p. 44)

São duas manifestações em construções diferentes, uma não menos poética que a outra, na abordagem do mesmo tema, dos mais caros ao poeta.

Outros diálogos, paráfrases, alusões, estilizações, citações, inúmeras intertextualidades formam cimento e massa para os demais poemas deste livro. Manuel Bandeira, Pessoa, Leminski, Drummond, para citar os mais distraídos.

A propósito, o poema drummondrummond apresenta dupla alusão, não somente ao poeta de “A rosa do povo”, como também a Alphonsus Guimaraens, presente no som do sino do título e na atmosfera de tristeza e morte no conteúdo do poema.

Aroldo lança mão também de apropriação de frases feitas, de cunho religioso e popular, reescritas com forte pendor para a crítica social, como em “mentir é arma de domínio”, que antes de Aroldo era “mentir é arma do demônio.”

Desse modo, comprova-se que a poesia marginal engendra um discurso poético resistente ao tempo se posto nas mãos e mente de um poeta que corresponda ao ofício de fazer versos. O título do livro pega o leitor na contra-mão. Parangolivro, neologismo formado de parangolé – palavreado desalinhado, e livro. Palavreado significa seu oposto, dessacraliza o formal, o sério, o normativo. Desalinhado, fora e além dos termos impostos por uma sociedade autofágica, preconceituosa, burra. Não alinhado. Marginal século XXI. Contra a máquina:

há coisas miúdas q. nos encantam

mesmo faltando dinheiro para o aluguel

e a visita tendo q. dormir no sofá

(p. 58)


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