Marginal e herói: pintura e música
na poesia de Aroldo Pereira
Gilson Neves
O primeiro impacto que nos provocou a leitura do poema “geração”, lá pelas tantas páginas de Parangolivro, o mais recente livro de poemas de Aroldo Pereira, foi nos fazer suspender a leitura e refletir sobre o que os versos diziam ou desdiziam:
passar no asilo
ver se reservaram
vaga pra minha
(p. 41)
Há muitos significados, evidente, caso contrário não seria poesia. No entanto, o primeiro que nos veio foi que a geração desse poeta sucumbia conforme sugeria a metáfora do primeiro verso. Não é verdade. Como representante da poesia marginal, Aroldo não só mantém os traços mais evidentes desse movimento – a crítica social, o verso livre, o deboche, a irreverência, a extrema subjetividade, o humor, o cotidiano, a síntese, a intertextualidade, o erotismo desbragado – , como ainda o supera, assimilando linguagens e imagens contemporâneas. Ao lado de certo ar de nostalgia, o leitor encontra uma voz nova e original.
Dentre os temas deste livro avultam o social, que se abeira do panfletário:
o brazil na televisão é 01 paraíso
a macromídia vende o país
do cinema americano do norte
(p. 79)
por que não se posiciona?
faça um reforma urbana.
divida seu coração, montes claros.
ajude esse povo triste e esperançoso
q. tem tanto amor por você!
seus atores sem teatro,
sua marujada sem prestígio,
seus operários sem fábricas.
montes claros, seus filhos choram
sua falta de interesse.
eles sangram sobre a ponte preta.
por que o trem-de-ferro vai parar?
por que os hospitais estão
fechando?
(p. 43)
O amor, com suas contradições e diversas faces, ora melancólica, ora alegre, irônica, ora sensual, erótica, pornográfica:
doce lar
doce mar de amarguras
(p. 39)
pecado
a cada instante que você
comete uma loucura
meu amor angustiado
arde nas chamas dos jornais
(p. 28)
trelelê
meupautácomsaudadedasuaboca
(p. 61)
A metapoesia, que apesar da presença da morte, da dificuldade de expressão, tem fé, acredita e luta contra as palavras e a solidão, a repercutir a mensagem de Carlos Drummond de Andrade:
palavras
A amora gonçalves pereira
o poema
in
cômoda
como 01 cisco no olho
íngua na língua
o verso martela
reverterevela
ressoapessoa
se há poesia
a pedra pousa
e o poema
alça voa
E, por fim, a temática sobre a família, os amigos:
cotidiano
meu filho lucas
dorme
minha filha amanda
cuida do rosto
o gato zilon
ressona zzzzz
no rádio rola
01 velho blues
em alguns momentos
viver é quase
sem mistério
(p. 48)
você estava certo, as frases estão sempre disponíveis.
só depende do seu nível de loucura, meu pai, meu
irmão, meu filho, minha mãe.
você sempre foi demais! nem raquel entendeu.
como maiakovski, você era todo coração. aliás, você era cem por cento arte.
(pp. 72-3)
Desses temas, cada um se oferece para uma análise rica e profunda. Comecemos, todavia, por aquilo que fascina em primeiro lugar: a linguagem e seus recursos expressivos. O poema “Parangolivro”, que dá título ao livro, se oferece por inteiro porque traz em si a síntese da poética aroldiana. Fala de um mundo órfão de alegria, despedaçado, barulhento, no qual a poesia luta para estabelecer sua morada. A musicalidade por isso produz arestas, sons rascantes, rudes ao ouvido. A aliteração destaca fonemas surdos e oclusivos, encontros consonantais, seqüências de fonemas deslocados na mesma frase melódica, rimas internas e assonantes, tudo isso em busca de um equilíbrio entre forma e conteúdo, trabalho de quem sabe manejar as palavras e sabe que efeitos procurar:
negro pobre poeta
escrever bater com a cabeça
uma arma em nossa mira
São recursos que nas mãos do poeta cria um vínculo entre o mundo triste e melancólico e a dimensão artística e onírica que pode, entretanto, salvá-lo. Peguemos ao acaso alguns versos de “Parangolivro”:
dentro da armadura
debater até sangrar
entrar e sair
como se não estivesse
Observe o domínio da palavra na carga aliterativa e dos encontros consonantais, sugerindo o som da fúria, de objetos e seres em conflito, em luta aberta, aos encontrões. A repetição do “r” insinuando a falta de fôlego de quem anseia por descanso, a cabeça fora d’água. Aroldo espalha pistas pelos versos, quer dialogar, interagir. Escrever poesia não é querer falar sozinho. A primeira palavra do primeiro verso – “dentro” – não aponta para armadura enquanto coisa somente, enquanto traje de guerra, ou apenas para o ser no interior da coisa representada, mas também enquanto palavra. Nela está “arma”, somada ao adjetivo que lhe resta. No segundo verso, “debater”, suprimido o prefixo, reforça o corpo-a-corpo, relacionando a ação de “bater” com o instrumento “arma”. No terceiro verso, encerra a surda batalha e antes que mude o acorde no último verso, exige uma última atenção do leitor. O prefixo de “de-bater”, significando oposição, reforça o estado beligerante entre as pessoas nesse mundo-máquina. Faz lembrar outro sentido criado por esse prefixo: o contrário do que significa o radical e nessa oposição, nesse jogo de contrários, o terceiro verso, se não traz explicitamente instrumento de luta nem gesto agressivo, é porque o dissimula na antítese e o “r” é dado como pista ao leitor. Lendo “sair” ao contrário temos o verbo “rias”. Na repetição do r, o som da risada, instrumento de combate, deboche e irreverência tão eficiente quanto os objetos beligerantes assinalados. Riso, gargalhada e sussurro. A aliteração do “s” no último verso transmuda em sussurro o que era riso aberto. Como se não estivesse rindo enquanto dissimula e ri, versos que se completam a outros, como na página 41:
quero ser sincero ao máximo
mesmo mentindo o tempo todo
retomando a dissimulação de “entrar e sair”, dentro e fora, ser e não-ser, armado e não-armado, em que o riso desnuda, franqueia e zomba de atitudes que se acham protegidas pelo disfarce das relações sociais condicionadas.
Em verdade, o poema “Parangolivro”, sendo uma espécie de profissão de fé aroldiana, espalha-se nos diversos textos metapoéticos do livro:
negro pobre poeta
sem noção de seqüência
multiplicidade de olhares
ler e descobrir
(p. 13)
O primeiro verso revela um recurso que nomeei de metáfora ou adjetivação de mão dupla. O jogo de palavras, a sem-noção de seqüência, pode tomar da esquerda para a direita a palavra poeta como substantivo ou adjetivo. Da direita para a esquerda, negro segue a mesma interpretação, negro para quem é negro, minoria oprimida, ou negro para quem está sombrio, abismado em sombras de tristeza, a alma a sangrar de dor pelo mundo desabitado de nós mesmos. Essa possibilidade de leitura enriquece a poesia aroldiana.
Nesse mesmo poema, no verso
não ter onde ir
duas leituras se cruzam na exploração do coloquialismo. Se estivesse gramaticalmente correto, o efeito não seria o mesmo. Muito do gosto do poeta, o paradoxo, a oposição, às vezes se escancaram; outras vezes, como nesse verso, dissimulam-se. Na primeira leitura, a negação vem escrita no próprio verso. Na segunda leitura, a negação se desfaz, positiva-se, abre-se como solução, caminho:
não ter onde [ ir ]
contradição que nos remete de alguma forma a Fernando Pessoa, cuja alusão aparece no poema “Palavras”.
Antes de entrarmos na intertextualidade, lembremos um outro recurso expressivo em “Parangolivro”, cuja contribuição veio da poesia concreta:
uma rua de são paulo
de coração de jesus
cada vez + distante
Aroldo usa o sinal de soma para negar a soma porque subverte seu sentido. Se é distante é porque não a tem, então não é mais, é menos. Também é resquício da memória, vai diluindo-se, nesse caso continua sendo menos. Por outro lado, o sinal é coisa, imagem, cruz, que se relaciona à morte, a desligamento. Coração de Jesus, cidade, civilização, urbe, indiferença, máquina; Coração de Jesus, religião, mistério, sacrifício, amor, sentimentos negados na contradição do signo, na lembrança de algo morto, cemitério, marcas de túmulos na branquidão bege da página do livro. Portanto, mão dupla.
Noutro verso, o sinal se une a outro:
05 favelas e + cresce
Os numerais aparecem como marcas de livros contábeis – 01, 03, 02, 05 – , endereços e nomes – av., stº, q. – , enfatizando a fragmentação, homem aos pedaços, linguagem árida de homem urbano, sintética. Nesse espaço, tiroteios, estupros, suicídios, pobreza. Por causa dele o sinal positivo nega a si próprio. Sinal de morte, violência. Lembra romanticamente a cruz de quem morreu na solidão das estradas, como no poema de Castro Alves.
Porém, o mesmo sinal pode ser vida como revela outro poema. Em “musa operária” traz a espontaneidade e o riso adolescente do espaço virtual, dos emoticons, onde o sinal lembra o asterisco usado para retratar o beijo e a letra q. lembra a letra p usada para desenhar o rosto de quem fez cara de bobo por uma circunstância feliz.
ela tem o beijo + gostoso q. já ganhei
e ficou só nisso
é casada tem 03 filhos e trabalha muito
tem o beijo + gostoso e 01 sorriso de cinema
(p. 52)
A construção do verso aliada à intertextualidade produz em Aroldo achados notáveis:
morro raimundo de montes
claros colares
(p. 15)
Na primeira vez que li o livro disse a Aroldo que os poemas traziam alegria apesar da atmosfera às vezes demasiadamente melancólica. O diálogo que o poeta faz com a música e a imagem plástica nesses versos mostra isso. As sílabas mor, mun e mon estufam os lábios ao serem pronunciadas, “formam” morros, montes. O leitor deve pronunciá-las nesse momento e atentar para o movimento da boca. A assonância por sua vez cria uma sombra, as vogais são escuras, articuladas no fundo da boca, cavernosas, a língua recolhendo-se. Temos a imagem dos morros e montes sucumbindo ao crepúsculo e às sombras. Em raimundo, entretanto, a sílaba rai brilha porque os fonemas transformam-se em sorriso na boca de quem os pronuncia. Em vez de se fechar, a boca se abre, imponderavelmente. O a como fonema médio, central, viaja em gradação para o i em busca de luz. Suprimida a sílaba – nesse caso, não mais sílaba, mas nome, palavra independente, conforme as expressões e substantivos compostos de Aroldo – , o verso fica negro, escuro, sem brilho. A morte, no verbo em primeira pessoa – morro – , liga-se a monte, metáfora para túmulo, enquanto o s se destaca como um pedido de silêncio, de expectativa:
morro mundo monte [s]
A pronúncia em gradação descendente aumenta a melancolia, ao nasalizar-se:
mor mun mon
como o tanger triste de um sino ao longe. A palavra mundo no centro vai dar novo significado à palavra rai. Quando pronunciada a palavra raí-mundo situa-se em dois extremos, aberto e fechado. Rai ao contrário dardeja no sorriso raios de sol, aurora em verso, poesia-pintura, razão por que o segundo verso
claros colares
destaca a alegria e a brancura da vogal a, o sorriso repetido duas vezes e mantido em reverberação na rima interna na 1ª e 4ª sílabas métricas. O encontro consonantal é líquido, salivamos quando o pronunciamos, tal como fazemos diante da palavra tamarindo, sinestesia provocada pela luminosidade jogada contra as sombras sugeridas pelo primeiro verso.
Vejo nesses dois versos uma das mais criativas homenagens que alguém poderia fazer à terra que ama. Num lance concretista, em gradação, vamos desconstruir e reconstruir o primeiro verso para desnudar a plasticidade do texto de Aroldo Pereira:
Morro raimundo de montes
Morro raimundo montes
Morro mundo monte
mor mun mon
mor mundo mon
morro mundo monte (s)
morro ( rai ) montes
que nos remete aos dois morros (morro-monte) e entre eles o sol (morro-rai-monte) da bandeira de Montes Claros. Com o nome de um artista plástico e a sensibilidade de poeta, Aroldo escreveu música, pintou literatura, musicou pintura.
Mais adiante, no poema “olhos urbanos”, o poeta impreca, desabafa, lamenta por Montes Claros, que morre ao vivo:
por que a faculdade vai cair,
princesa decadente?
você e seus olhos de neon
não respondem nada.
seu coração está deteriorado,
chagásico...
e você já não se preocupa
com seus rios q. secam,
com suas montanhas
q. diuturnamente viram pó.
montes claros, desliga a
televisão.
(p. 44)
São duas manifestações em construções diferentes, uma não menos poética que a outra, na abordagem do mesmo tema, dos mais caros ao poeta.
Outros diálogos, paráfrases, alusões, estilizações, citações, inúmeras intertextualidades formam cimento e massa para os demais poemas deste livro. Manuel Bandeira, Pessoa, Leminski, Drummond, para citar os mais distraídos.
A propósito, o poema drummondrummond apresenta dupla alusão, não somente ao poeta de “A rosa do povo”, como também a Alphonsus Guimaraens, presente no som do sino do título e na atmosfera de tristeza e morte no conteúdo do poema.
Aroldo lança mão também de apropriação de frases feitas, de cunho religioso e popular, reescritas com forte pendor para a crítica social, como em “mentir é arma de domínio”, que antes de Aroldo era “mentir é arma do demônio.”
Desse modo, comprova-se que a poesia marginal engendra um discurso poético resistente ao tempo se posto nas mãos e mente de um poeta que corresponda ao ofício de fazer versos. O título do livro pega o leitor na contra-mão. Parangolivro, neologismo formado de parangolé – palavreado desalinhado, e livro. Palavreado significa seu oposto, dessacraliza o formal, o sério, o normativo. Desalinhado, fora e além dos termos impostos por uma sociedade autofágica, preconceituosa, burra. Não alinhado. Marginal século XXI. Contra a máquina:
há coisas miúdas q. nos encantam
mesmo faltando dinheiro para o aluguel
e a visita tendo q. dormir no sofá
(p. 58)

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